De dois para três

Temos finalmente a nossa vida organizada, agora que já passaram um ano e qualquer coisa sobre o início do projecto “Paternidade”.

Não era de estranhar que algumas coisas estivessem a mudar nas nossas vidas. O que estranhámos é tornarmo-nos em adultos à força, passando-nos a preocupar com coisas que dantes eram para nós irrisórias.

Os horários de sono, por exemplo, podiam ser alterados, consoante se tratasse de dia de semana ou fim-de-semana.

Que mal poderia ter deitarmo-nos só um bocadinho mais tarde no fim-de-semana?

Pois é. Agora que somos três sabemos que o terceiro, o que veio por último, se aproveita da situação para tornar a semana seguinte numa autêntica rave em que ás três da manhã continua a gritar pela casa “Gooooooooolooooo” enquanto atira com a bola contra os pais ensonados.

Da lista de compras fazem agora parte os pacotões de fraldas, o leite do menino e os potinhos com sobremesas e refeições de emergência variados.

Ir às compras com o terceiro é agora uma aventura, pois que ele quer saber tudo, mexer em tudo, e tudo têm de ser explicado.

Sinceramente, a mudança até nem foi grande já que continuamos a comprar mais coisas que as que inicialmente tínhamos na lista e esquecer-nos de algo que lá tínhamos posto ou inicialmente nem tínhamos anotado.

Vistas bem as coisas, está o filho a fazer as vezes do pai, que dantes perdia longos períodos a observar cada objecto novo que o supermercado oferecia, quer fosse um novo DVD da prateleira, quer fosse escolher o melhor naco de carne do talho.

As refeições eram tão simples como “Que queres que te cozinhe? Vamos escolher aqui no livro de receitas?”.

Mas agora temos a nova modalidade: “Não. Isso não pode ser que ele ainda não comeu isso”. Ou “ Bem, é melhor esse não ser já que introduzimos esta semana a carne de porco”.

Temos todos de comer a mesma comida porque, segundo as más línguas, preciso de regrar a minha alimentação para perder a barriguinha.

Cabelo por cortar, barba por fazer. Passear pela casa de cueca, coçar o escroto até doer. Puro para fumar e Rum velho para beber, são tudo coisas que já lá vão.

Noutros tempos escreveria algo do tipo: “O rum velho têm de ser sem gelo, que os homens de barba rija não se preocupam com essas coisas. Para degustar o puro, terá de se acender com os refinamentos de prazer só depois de momentos de antecipação findos após terminado o tempo do cubano no humedor.”

Nos meus tempos de solteiro, eram as saídas com os amigos a deitar piropos fora às grossas que de nós se vão aproximando ou os intermináveis jogos online com longas horas de conversa com os companheiros de guild (Grupos online que combatem para o mesmo fim) que num qualquer mundo virtual de dragões e aranhas gigantes são na realidade vendedores imobiliários nos Estados Unidos da América.

Em lugar das longas horas de jogos de computador, tenho agora exuberantes momentos com o terceiro a jogar “atira a bola ao pai” e “vamos andar à roda até cair no chão de tontos”. Bem sei que o nível de exigência mental não se compara a um SimCity, mas a excitação e alegria enchem a sala de família como a baba dos dentes a nascer enche o chão de tijoleira.

Em lugar da longas horas a ver filmes aninhado com a namorada feita mulher, longas e consecutivas horas a ver o infindável “Finding Nemo”, com o terceiro a dizer “peixe, peixe” e “pato, pato”

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