Dúvida

Dúvida como névoa que não se dissipaA dúvida desgasta, ocupa, moí, mina e impede a lucidez. Toldar algo ou alguém com dúvidas faz com que tudo o que diz, faça, represente ou pense vir a ser se torne mais duvida.

A dúvida é assim ela própria geradora de mais dúvida. A dúvida aquietadora e toldadora reduz a possibilidade de resolução logo à partida por não poder ser ignorada e para sempre influenciar a decisão.

Quando é dúvida de amor, deixa-se ao coração decidir e tem de se adormecer a razão. A razão não precisa do coração e tenta por isso a todo o custo levá-lo ao engano.

Quando a dúvida não é do coração, julga-se perante os envolvidos, de acordo com as regras pré-definidas, utilizando apenas os factos e aceitam-se as conclusões.

Quando se julga, julga-se com o objectivo de desfazer a dúvida, acabar com o que a dúvida criou e continuar sem mais ses e porquês.

Aceita-se à partida que para esse julgamento só os factos servem e que os indícios sobejantes, eles próprios geradores de dúvida, devem ser descartados para sempre por não se ter provado constituírem apontadores para factos ou não se conseguir encontrar os factos para que parecem apontar.

Aceita-se que ao acusador, ao que levanta a dúvida, cabe a obrigação de transformar a duvida em factos, e aos que assistem, aqueles que julgam, cabe identifica-los como tal, evitando as falácias na argumentação de quem lança a dúvida.

Não podemos julgar e julgar e julgar os mesmos indícios vezes e vezes sem conta. Não é produtivo, nem racional e apenas gera dúvida, mas talvez seja esse o objectivo de quem dia após dia após dia após dia após dia alimenta a dúvida. Isso já nada tem a ver com a razão, aquela da lógica, mas com uma razão motivada, que de lógica já não tem nada e que tem tudo de emoção.

Isto podia ser sobre as coisas de um julgamento feito pela razão, mas acaba por ser também sobre as coisas do coração. O coração parece pois ter uma parte nas coisas da razão.

Este texto foi inspirado no que se disse aqui “A ‘táctica Calimero’ falhou” * « BLASFÉMIAS, aqui O primeiro dever de um jornalista – Delito de Opinião, aqui “Why Evolution May Favor Irrationality – Newsweek”, aqui O acessório do anterior cerne – jugular, aqui Câmara Corporativa: Simplesmente triste e também por aquela que me ocupa o coração.

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