Faisão de capoeira.

Quero dizer-vos que ser criança é algo muito ingrato.

Não nos deixam fazer nada do que gostaríamos, porque temos de seguir ordens, apenas para nos apercebermos que quando já não as temos de seguir, não têm a mesma graça fazer o que dantes desejávamos.

Saibam que fui dos poucos rapazes da minha idade, que quando andava na escola primária, se podia vangloriar que havia comido o melhor arroz de faisão de capoeira da sua vida.

Aliás, o único. Aquilo era o arroz tostadinho em cima e o macio do bicho lá escondido dentro, já devidamente desossado e temperado. Assim que a travessa saíu do forno, a mesa atirou-se à iguaria sem vacilar. Mas voltemos atrás no tempo.

A minha mãe tinha-me entregue à guarda da prima da minha avó a quem eu carinhosamente chamava tia, pois que para mim todas as pessoas com rugas já tinham idade para ser tia. Levaram-me para a quinta deles, acima de Lisboa, onde me mostraram os lagares de azeite e os terrenos.

Com a minha tia e o meu tio, ía o filho deles que tinha mais uns dez anos que eu e se divertia a contar-me as histórias mais mirabolantes que brotavam da sua imaginação. Dava-me toda a sua atenção e explicava-me a cada passo a produção do azeite.

Na primeira noite fiquei ultrajado com o estado em que estava o interior do país, pois que, como me explicou, todas as pessoas da aldeia tinham de se deitar às nove horas, uma vez que o homem que tomava conta do gerador da aldeia o desligava a essa hora.

No dia seguinte e no dito almoço, já em casa de outros membros da família, foi-me explicado que os mesmos ganhavam a vida a criar o maravilhoso Faisão.

Naturalmente que a minha curiosidade de criança, manteve-me irrequieto o suficiente até encontrar as capoeiras, onde infelizmente apenas haviam patos na altura.

Digo-vos que só recentemente me apercebi da peta que me haviam pegado, tendo por isso ganho um ódio figadal ao dito prato.

Hoje não deixo de apreciar um dos momentos mais felizes da minha vida de adulto, precisamente quando me aproveito da mente ingénua dos mais pequenos da família enquanto lhes explico que para fazer uma página para a www é necessário implantar um chip especial na cabeça para a pessoa conseguir imaginar tudo antes de passar para o computador.

Mentir aos mais crédulos explicando-lhes as coisas num ponto de vista mais alucinado, é a melhor sensação que o mundo pode dar. Acho que só isso pode justificar o sorriso na cara dos políticos enquanto andam em campanha.

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