Aquele que

É uma história recente aquela do programador autodidacta transformado num mau gestor de projecto que têm de ser reconvertido num pior consultor. Para aqueles que estão a ler isto e pertencem aquela interminável lista de vítimas dos consultores/programadores/gestor de projecto e que já tiveram entre mãos a necessidade de contratar uma empresa de desenvolvimento de software, sabem do que estou a falar. Para aqueles que nunca passaram por isto nem se cruzam comigo no meu dia a dia profissional, vou dar-vos então conhecimento de alguns detalhes.

À cerca de uma década deu-se o que decidiram os novos gurus chamar de “Web Boom” há imagem do “Big Bang” (havemos de falar deles).

Na histeria colectiva da nova economia (Ver a era das e-coisas) surgiram uma pá e mais uma xícara de pseudo especialistas que mais ou menos seguiam o mesmo percurso.

Começaram por programar umas coisas para os amigos com as ferramentas lá do escritório, para não citar nomes, e de repente viram-se a braços com dinheiro a rodos que era empurrado às pazadas para dentro de empresas em que o único objectivo era criar expectativa em lucros futuros por forma a serem vendida à melhor oferta. No meio do frenesim de aquisições e re-estruturações, as empresas tinham de mostrar evolução, assim passavam-se os directores para administradores, os chefes para directores, os programadores passavam para chefes, e como não havia mais ninguém, a senhora da limpeza a programador.

Volta e meia havia uma re-estruturação, e mudavam toda a gente de unidade horizontalmente ou então mudavam apenas o nome da unidade, para criar valor acrescentado, com era normal ouvir-se. (Para efeitos de convenção, e uma vez que nem eles próprios sabiam já a quantas andavam, passaremos a referir-nos a eles como “aquele que”.)

No meio disto tudo estavam os cliente: – Olhe, desculpe-me senhor dr. Prof. Consultor especialista. Nós só queríamos que aqui o nosso email passasse a obrigar quem envia a classificá-lo consuante um assunto que previamente definido por nós.

– Oh, mas isso não custa nada. Compra um XPTO, que vai ligar a um XPTY e nós desenvolvemos-lhe aqui uma solução à medida que faz aparecer um cuco na gaveta de cada utilizador a dizer as horas. – Respondia “aquele que”.

– Mas sr. Prof. Eng. Dr. Arq. Presidente, nós não queríamos o cuco.

– Não. Isso não pode ser. É que se não houver o cuco o XPTY não comunica via PLIMPLOIM para o BINGBING.

Lá vinha o cuco.

Na realidade, logo que o software era lançado, o cuco ladrava.

– Olhe, desculpe-me Sr. Dr. Prof. Consultor Especialista, mas o cuco só ladra, não faz “cu cu”.

– Não faz cuco porque não fizeram upgrade da versão XPTO 1.0.0.0.2.3.4.2.5.23 para 1.0.0.0.2.3.4.2.5.26.

– Dizia eloquentemente “aquele que”.

– Mas senhor Mestre MBA Prof. Dr. Eng.º Chefe, nunca nos pediu a versão… Essa que disse agora. E lá vinha o dito upgrade. Mais uns dias e a coisa voltava a dar para o torto.

– Mas Sr. Administrador Mestre Dr. Eng.º Presidente, agora os emails começaram a desaparecer… Só aparecem linhas de código no lugar das mensagens.

– Pois claro. Os utilizadores são sempre a mesma coisa. Fizeram alguma alteração ao CPTY? – indagava “aquele que”.

– CPTY? Mas o que é o CPTY? Lá se verificava que o CPTY estava onde era suposto estar mas que tinham ficado umas “instruçõezinhas” a mais que serviam para os programadores testarem o seu trabalho, as instruções de DEBUG (Do inglês e em tradução livre não-bichos).

– Mas Sr. Monitor Altíssimo Especialista, nós não queremos lá essas coisas que disse. Isso está a mostrar coisas que não compreendemos.

– Claro que não compreendem. As instruções de debug são para nós compreendermos. Deixe lá estar as instruções que fazem-nos falta. E era assim. Com dez anos desta experiência em mente, imaginem o que vos vou contar:

Recentemente um destes “aquele que” meu conhecido, sempre na crista da onda das novas tecnologias, bem informado e com poucas preocupações familiares, decidiu mudar de ramo para o último grito da moda e foi estudar genética.

Podem agora imaginá-lo daqui a uns anos a falar com o cliente enquanto este se queixa?

– Senhor doutor-engenheiro, a vaca que desenvolveu para mim não pára de pular de um lado para ou outro e quando nasceu o bezerro de crescimento rápido para qual lhe encomendámos a mutação genética, ela tentou metê-lo no #$#$#

– (N.T: onde o sol não brilha). E lá virá a resposta de “aquele que”:

– O senhor não deve ter feito tudo como lhe disse. Têm lhe dado as injecções de PSIOMONOMININIX?

– PSIOMONOMININIX? Mas o senhor não tinha dito PSIOMONOMINININININIX? Naturalmente que já sabem que se a vaca começar a vomitar compostos químicos abrasivos, são as instruções de debug.

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